Para estudar Filosofia

Estudar Filosofia, como estudar outra disciplina qualquer, é uma atividade que exige esforço e método. Sem método, o esforço é ineficaz. Com método, a aprendizagem torna-se mais agradável e o sucesso mais fácil.


A leitura

A leitura eficaz de um texto ou de um conjunto de textos processa-se, em geral, em duas etapas distintas:

• Primeiro ler por alto, fazer uma leitura rápida, dando particular atenção a títulos, esquemas, ilustrações e frases em destaque. O objetivo é saber de que assunto se trata e identificar os elementos mais importantes ou mais interessantes do texto.

• Após ter uma visão geral do assunto, chegou o momento de ler o texto em profundidade. Nesta segunda etapa, deves aproximar-te do texto, de forma cuidadosa e crítica, para compreender o que se diz e como se diz. A compreensão do texto é fundamental para elaborar correctamente esquemas ou resumos e para fazer bons comentários.


Consultar o dicionário

A ignorância das palavras constitui o primeiro obstáculo à compreensão de um texto. Por isso, deve-se consultar o dicionário sempre que encontrar palavras cujo significado for desconhecido. Pode-se consultar um dicionário geral ou um Dicionário de Filosofia.


Elaborar esquemas e resumos

Os esquemas e resumos facilitam a aprendizagem e permitem revisões rápidas antes das provas.

Os esquemas são simples enunciados de palavras chave e podem ter a forma de índices, quadros, desenhos ou mapas. Representam grande economia de palavras e permitem visualizar facilmente o conteúdo de um texto.

Os resumos são reconstruções abreviadas do texto original, por palavras próprias do leitor, seguindo o plano e o pensamento do autor. Isto exige a identificação e o registo das ideias de cada parágrafo.

Atenção, resumir não é comentar. Um bom resumo diz apenas, com brevidade, clareza, rigor e originalidade, o que disse o autor do texto. O comentário vai além do resumo. Comentar implica:

• Compreender as ideias principais do texto e os argumentos utilizados pelo autor para defesa dos seus pontos de vista;

• Situar o texto na obra do autor e no seu comentário literário, histórico ou filosófico;

• Apreciar o valor das ideias apresentadas, comparando-as, por exemplo, com as ideias defendidas por outros autores a respeito do mesmo assunto.

O que é estudar filosofia?

Nigel Warburton

A filosofia é diferente de muitas outras disciplinas das Letras porque para estudar filosofia é necessário fazer filosofia. Para ser um historiador de arte, não é necessário pintar; para estudar poesia, não é necessário ser um poeta; e podemos estudar música sem tocar um instrumento. Contudo, para estudar filosofia é necessário que nos entreguemos à argumentação filosófica (argumentar é apresentar razões ou indícios que conduzem a uma conclusão). Não se trata de operar ao nível dos grandes filósofos do passado; mas quando se estuda filosofia faz-se o mesmo tipo de coisa que eles fizeram. Podemos jogar futebol sem chegar ao nível do Pelé, e podemos obter muita satisfação intelectual filosofando sem a originalidade ou o brilhantismo de Wittgenstein. Mas em ambos os casos será necessário desenvolver algumas das competências usadas pelos grandes praticantes. Essa é uma das razões pelas quais a filosofia pode ser uma área de estudos imensamente compensadora.

A palavra "filosofia" deriva do grego "amor da sabedoria". Mas isto não é particularmente útil para a compreensão do modo como a palavra é agora usada. A filosofia é um disciplina nuclear relativamente à maior parte dos cursos de humanidades. Centra-se em questões abstractas como "Será que Deus existe?", "Será o mundo realmente como nos parece que é?", "Como devemos viver?", "O que é a arte?", "Teremos uma liberdade de escolha genuína?", "O que é a mente?", e assim por diante.

Estas questões muito abstratas podem surgir na nossa experiência cotidiana. Algumas pessoas fazem uma caricatura da filosofia como se fosse uma disciplina sem relevância para a vida, uma disciplina para estudar em casa unicamente por satisfação intelectual, o equivalente acadêmico de fazer palavras cruzadas. Mas isto é uma representação gravemente errada de grande parte da disciplina. Por exemplo, o caloroso debate sobre se o boxe deve ser proibido só se pode responder enfrentando questões abstratas importantes. Quais são os limites aceitáveis da liberdade individual num país civilizado? Quais são as justificações para o paternalismo, para forçar as pessoas a comportar-se de uma certa forma para o seu próprio bem? Por outras palavras, este debate não é apenas sobre reações emocionais ao boxe; depende antes de pressupostos filosóficos fundamentais (um pressuposto é uma afirmação a favor da qual não se avança qualquer argumento; uma afirmação que se aceita para permitir a argumentação).

A análise de razões e argumentos é uma área própria da filosofia. De fato, se a filosofia tem um método distintivo, é este: a construção, crítica e análise de argumentos. As competências filosóficas são aplicáveis em qualquer área em que os argumentos sejam importantes, e não apenas nos domínios da especulação abstrata. São particularmente úteis quando se escreve ensaios, dado que se espera habitualmente que se defenda conclusões, e não apenas que as afirmemos. Por esta razão, uma formação básica em filosofia é extremamente importante, seja qual for a disciplina acadêmica que se tenha em mente seguir.

 
Tradução de Desidério Murcho
Original: http://www.open.ac.uk/Arts/philos/whatis.htm